quinta-feira, 16 de abril de 2015

AMIGO AMOR...
Eduardo e Lucia conversavam:
- Pois é... Como tu é incrível, inteligente, gosta das mesmas coisas que eu gosto. Impressionante. – Constatou
- É, né? Combinamos tanto - concordou ele.
- Lembrei daquela vez no bar, onde rimos muito. – lembrava ela.
- Verdade... – Eduardo percebe a deixa. Então ele se aproxima dela, começa a acariciar seus cabelos. Lúcia sorri. Ele a segura na cintura para puxá-la ao encontro do seu corpo, e então a frase:
- Somos apenas amigos. – Tasca ela.
- C... Como? Pergunta Eduardo sem entender. Sim, ele tinha lido todas as entrelinhas, todas as deixas, tudo parecia claro, apenas parecia...
- não podemos ser apenas amigos?
- Olha, creio que não. Te acho atraente, bonita, inteligente... – Antes que ele possa concluir...
- Eu também te acho tudo isso, mas...
Então ouve-se um trovão, raios caem do céu em fúria. Surge um homem alto, de barba branca em sua túnica desbotada do tempo e grita, sua voz estrondeante retumba nos tímpanos mais surdos...
- Porra!!! Então tu chora por não encontrar o homem da sua vida e quando ele aparece tu quer ele para seu amigo??? - Grita, enfurecido o homem descendo das nuvens.
- Qu... qu... quem é você? Diz Lucia, atônica, gaguejando.
- Tu não reconheces mais essa barba e esse pano velho que até meu filho preferido já usou?
- N... n... não...
- Sou Deus, caralho!!!
-D... Deus???7
-Para de gaguejar que isso está me irritando...
-Tá... Como assim... Deus?
- Deus, oras! O onipresente, onipotente, inodoro e as vezes insípido. E estou aqui para resolver esse pequeno perrengue.
- Mas você faz isso sempre?
- Você? Grita Deus fuzilando-a coma os olhos!
- Upss, quer dizer... o Senhor...
- Melhor... Tá, vou te confessar que tenho estado meio ausente e algumas vezes faço umas interferências meio que diretas. Faço vcs beberem além da conta, dormir só de roupas íntimas na mesma cama. Mas as vezes vocês se superam. É tanta merda que vocês fazem que as vezes abusam do seu livre arbítrio. Pelo amor a mim, credo!! Vocês são fodas.
- E você decidiu fazer essa interferência justamente conosco? – Pergunta o Eduardo, com um sorriso nos lábios.
- É, mas te aquieta. Tô fazendo uma baita mão para ti. Atééééé conseguir arrumar uma oportunidades para vocês encherem a cara e se beijarem ou dormirem só de roupas íntimas, estarão velhos e broxas. Então tive que fazer uma interferência, digamos mais ortodoxia.
- Legal... – diz Eduardo baixinho para ninguém escutar...
- Eu ouvi isso. Diz Deus apontando para Eduardo que fica corado de vergonha.
- Tá, e como vai ser? – Pergunta Lúcia.
- Como vai ser... qual a palavrinha mágica? Vamos lá, fiz por merecer o título.
- Aff... Como vai ser, Senhor, meu Deus.
-Melhorou... Bom, o processo é simples tu aceita ele na boa, ou te faço uma lobotomia e tu esquece ele como teu amigo e vai sofrer por amor pelo resto da vida.
- Credo... Que dramático...
- Minha filha, já incendiei, lancei praga, já inundei o mundo e até fiz água virar vinho. Vai por mim, é barbadinha te lobotomizar...
- E meu livre arbítrio, onde está?
- Olha só... é sacanagem invocar essa lei...
- Pois eu invoco – Grita ela...
-Veja bem, minha filha – Diz Deus tentando ponderar... Vai por mim, o amor pode estar na tua frente...
- Pode estar, poder não é ser... não sei... prefiro ele como amigo...
- Vem cá, então eu desço lá do meu descanso celestial, com minha trupe de anjos e você vai me ignorar assim?
- Vou...
Cabum!!!! Um raio corta o céu e dá no meio da cabeça dela.
Ela com a maior naturalidade sai andando como se a passeio.
Eduardo dá um pulo para trás de susto
- O que é isso! - Exclama!!
- Apaguei a mente dela. Agora ela não te conhece e você poderá dar em cima dela e ela se apaixonar por ti como deveria ser. 
- Mas eu não quero isso. Quero que ela goste de mim como eu sou...
- Blá, blá, blá... Já ouvi essa história. Não vai rolar... Ela não vai nem te olhar direito como homem... Mulheres são assim, meu filho... Está na frente dela mas ela não enxerga...
- Tá, mas não gosto assim...
- Poutz, olha só. Não tem como voltar, já fiz tá feito. Imagine se eu tivesse que voltar em tudo que eu faço. Não haveria mais dilúvio, o mar não se abriria, etc, etc, etc...
- Mas o que eu faço? Ela tá ali olhando perdidinha...
- É né? Melhor, assim quando ela voltar os olhos para ti vai se apaixonar. 
- Prefiro ao natural.
-Aff!! Porra, tu é um saco, caralho!!! Toma!!!
E outro raio cai na cabeça de Eduardo. Ele também sai caminhando...
Deus a tudo observa sentado no banco.
Passam-se alguns instantes... Eduardo, parece olhar para o celular e não vê uma mulher que se aproxima na mesma direção e que também olhar para o celular. 
Se esbarram.
Os celulares caem no chão e ambos se desconcertam com a situação. Se agacham para pegar batem a cabeça, caem no chão, sorriem uma par outro, se olham.
- Desculpe, 
- Desculpe.
-Não foi nada. Tu passeia sempre por aqui? Pergunta Eduardo
- Sim. Sempre.
- Como nunca te vejo?
- Deve estar prestar atenção mais ao celular.
Ela ri. Ele também.
- Qual é seu nome?
- Lucia. 
- Prazer, Eduardo. Aceita um café?
-Assim direto? Hmmm... Tá...  - Sorri maliciosamente. 
Aquele fora o primeiro dia de muitos que vieram, se apaixonaram ali, tornaram-se felizes e viveram uma vida de boa. 
Deus escreve certo por linhas tortas, mas as vezes ele apela para a caligrafia. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Amor Abutre

Então você compra um smartphone novinho em folha. Última geração, com todas as tendências da atualidade. Resolve usar o auto corretor de mensagens para agilizar aquela "dedação" toda que é digitar no wats. Manda a sua primeira mensagem para a aquela gata, linda que você está afim. Pensa na mensagem da seguinte forma:
"Oi, meu amor!!! Saudades por ti."
A mensagem vem meio que imediata.
"Como assim?"
Ele imediatamente pensou em uma mensagem e escreveu:
"Como assim, o que?
Ela, mais que imediatamente respondeu:
"Idiota" e um smile com carinha enfurecida.
Ele, confuso olhou mais uma vez na tela do seu ultra, multi, super smartphone geração plus e leu o que pensava ter escrito, mas:
"Oi, meu abutre!!! Socadas em ti"
"Como sim, o que"
Esboçou com um soco no ar e esbravejando.
- Maldito corretor!!!
Tentou, acalmar e mandou outra mensagem.
"Esse puto do meu corretor automático, desculpe"
Mas lá estava escrito "Esse puro do meu corredor automático, descubra"
Finalmente do outro lado um sorriso.
kkkkkkk. "Desliga essa geringonça". Dizia o texto da menina.
Ele na dúvida, e com medo lançou um smile piscando para ela. Esse não tinha como errar.
Mesmo assim, permaneceu com o corretor, achava mais prático.
Apesar de as vezes lhe causar constrangimentos, geralmente seu corretor fazia correções de forma a tornar a palavra menos agressiva. Ele o traduzia com uma sutileza sem tamanho. palavras como "merda", puta", "vaca"(dependendo do contexto),  e "prostituta", eram sumariamente substituídas por "mera, pura, vara, e postulante".
O rapaz até não reclamava muito disso, mas o amor, ah... o amor, esse era complicado. Não tinha, de forma alguma, mesmo soletrando e ensinando ao corretor a palavra amor sempre saía abutre, ou na melhor das hipóteses algumas palavras similares como avon, por exemplo. Sabia o nome de um cosmético, mas saber amar era difícil. Era preferível ser um suave perfume, ou um animal que come carniça do que ter um dos sentimentos mais enobrecidos. Nada de amor.
O corretor, dentro da sua modernidade, segundo o rapaz, veio configurado com essas novas tendências modernas, o do uso descartável das relações e deixadas a esmo a espera de um abutre que a consiga digerir. E, nessa questão nada melhor do que o abutre para representar esse novo amor que nasce no coração desses amores carniça.
O amor não estava no vocabulário daquele inóspito e insensível corretor. O amor abutre, assim ficou conhecido, tornou-se uma espécie de comedor de corações abandonados, inóspitos de tanto mal usado. O sentimento nobre, altivo dava lugar para um ser que come o que de resto lhe sobra, os corações apodrecidos. 

domingo, 6 de julho de 2014

Davi e Golias em tempos modernos

Os Ex amores vivem em um plano distinto dos demais. Alguns dizem que eles vivem em um limbo, o que concordo, se bem que uma grande parte preferiria que eles vivessem em uma espécie de inferno astral.
Conhecemos, nos enamoramos, flertamos, trocamos confidências, carinhos, afetos, salivas, e as vezes, até escova de dentes. Fizemos planos, colocamos toda uma carga emocional, e então, por algum motivo, tosco para alguns, mas determinante para o casal, viraram ex. 
Astroaldo conhecera Rufia assim. Se olharam, se apaixonaram e se separaram. Ambos queriam, que se fosse possível, o outro mudasse de cidade, país, planeta, mas não foi assim. Permaneceram na mesma cidade. E era inevitável um encontro. E foi o que aconteceu. 
Astroaldo saiu para a noite. Em uma dessas, em um bar onde todo mundo cruza, mas todo mundo mesmo, até a sua ex, encontrara-a nos braços de seu atual namorado, Alto, grande, gordo, e Astroaldo, baixo, barrigudinho e desbocado. Trocaram olhares, se analisaram, olharam-se dos pés a cabeça. Astroaldo demorou mais para fazer essa análise, devido o tamanho do rapaz, achava-o mais feio que ele, mais desengonçado, se achou mais bonito, esbelto que o seu sucessor, um sorriso de vitória estampou-se no nos seus lábios. 
E em algum momento não descrito, e tão pouco compreendido, Astroaldo soltara alguma piada infame ao namorado da ex. Usando de toda a sua corpulência o atual veio em sua direção.  Astroaldo sentiu um arrepio na espinha e um arrependimento súbito veio-lhe a mente. Palavras ao ar, palavras ditas, não tem retrocesso, não tem volta. 
Ele pequeno e o namorado gigante seria uma tragédia anunciada. Astroaldo não tinha como escapar ao enfrentamento, já sentia em seu corpo os hematomas de um breve futuro que se anunciava, só pensava: "não bate no rosto, não bate no rosto!!!", seria inevitável pelo tamanho, pois era o primeiro lugar a ser alcançado. Precisava de uma outra estratégia. Tudo isso acontecendo em segundos. O rapaz veio em direção e colocou-se a milímetros de Astroaldo, era o fim. 
- O que você disse? Resmungara o namorado. 
Astroaldo não poderia voltar atrás, seria sua derrota moral, sua reputação estava em jogo. 
- O que você escutou... - respondeu Astroaldo mantendo a pose. 
- Repete se é homem! - Exclamava o namorado. 
Segundos de silêncio, Astroaldo engole em seco a saliva. 
- Até repetiria se soubesse exatamente o que disse. - ironizou.
- Baixinho covarde. Repete!
Então...
- Veja bem, chegamos a um impasse... - Tascou Astroaldo.
- Como? 
- É chegamos a um impasse. A uma situação quo, a um momento em que devemos nos digladiar ou discutir a respeito.
- Vou discutir com minha mão enfiada na tua cara! Gritou enfurecido o namorado levantando a mão.
Astroaldo já imaginou aquela mão lhe esbofeteando a cara e arrancando-lhe alguns dentes, e tascou:
- Pode ser, mas seria um equívoco. - sua frase tinha que ser curta e provocar alguma emoção contrária a reação do rapaz. E conseguiu.
- O que?
- Veja bem, você tem quase o dobro do minha altura, só a tua mão é do tamanho da minha cabeça. Em tempos onde não existem mais nem Davis nem Golias, eu certamente perderia para você com um só golpe. 
- Não conheço nem um Davis nem Golias. Tu me provocou, cara!
- Sim, talvez na emoção da circunstância, talvez elevado pelo álcool, quem vai saber? O fato é que se você desferir algum golpe em mim terá executado o lógico e óbvio. Não tenho escapatória. Mas o fato de nós partirmos para a briga física significa que todos os argumentos de racionalidade foram para o espaço. Sobrando apenas a selvageria. 
- É, mas tu não foi nada racional ao ofender a mim, e minha namorada. 
- Veja bem, nós poderíamos sentar em uma mesa de bar e discutir a situação e até te dizer que ela nunca vai gozar contigo como gozou comigo. 
Limbo temporal
Astroaldo fora levado para o hospital com fraturas nas costelas, sem 4 dentes, com um olho roxo e dois dedos da mão direita pelo avesso. 
Tem vezes que não há razão que resista a imbecilidade.   


sexta-feira, 20 de junho de 2014

O Amor é uma Droga

Só mais um dia. Estou sóbrio há três semanas, 2 dias e 14 horas. Não, não sou alcoólatra, muito menos uso drogas. Eu amei, ou algo muito semelhante a isso, e não me venham com essa de que amor é amor e ponto, não me convence.
Todos os dias me levanto, tomo meu café e digo para mim mesmo: "só por hoje". Não é fácil, vou dizer, com todas essas tecnologias e comunicação é praticamente um ato heróico se manter sóbrio. É um whats lançado a esmo, um face numa curtida ou mensagem furtiva e o tratamento vai para o espaço. 
Acredite amigo, as tentações são grandes. É muito acesso a esse tipo de drogas no mercado. 
Isso piora consideravelmente quanto estamos bêbados, nosso celular com a bateria bombando, grita, berra para fazermos uma besteira. Descobre-se aí a força de vontade de um viciado, o quanto nós, apaixonados temos que lidar constantemente com o fato de não ceder, não se entregar. Aí você diz: "Vai lá, tome coragem, mostre-se". Mostrar-se quer dizer ficar refém, vulnerável. Nossa integridade nesse momento deve ser preservada. 
É um vício danado esse, hã cura, sei, o tal tempo, mas cá entre nós, esse tempo tem suas mensurações distintas para cada viciado, e para cada dose do quanto a droga te afetou, alterou suas percepções, noções da razão, da lógica. O Vício diz: "vai lá, mais uma dose", e o viciado em recuperação briga constantemente contra isso. Entendo os alcoólatras, drogados em cocaína, craque, drogas sintéticas e outras substâncias, são eternos viciados na tentativa de controlar uma droga que os tira do prumo. Mas acredite, amar é a pior das drogas. Ela te tira do centro, te desconcerta, te arremessa ao sentimentalismo absurdo que obscurece a razão. Te deixa embriagado e muitas vezes, na sua grande maioria ofusca sua visão. É, meu amigo, não ame. E se for amar deixe que lhe ame também, assim podem, os dois curtir o barato juntos.
Acabo de lançar um whats, não houve respostas... vácuo...
Estou sóbrio há cinco minutos, 32, 33, 34 segundos...

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Bar de Família

Das memória insólitas e noturnas de Lindolfo Blasé.
Os bares que eu frequentava não eram lá grandes coisas, mas lá estava o povo oprimido, e nesses lugares via  algo libertador. O pessoal da alta classe chamava de inferninho, os intelectuais de cult, eu simplesmente chamava de um lugar barato para se beber uma cerveja gelada. Meu amigo para essas indiadas era o Afonso, ele tinha um péssimo gosto para mulheres, e sempre escolhia a mais feia do lugar onde nós nos enfiávamos. Talvez suas escolhas estivessem ligado ao medo da rejeição, ou, como ele sempre pregava, fazia tudo por pura caridade. 
Naquela noite estávamos acompanhados do Jorge, um desses metidos a intelectual de esquerda, mas seus ensaios sobre a noite nos fazia ver o belo onde pouco se via. 
Entramos no primeiro boteco que vimos. Logo na entrada uma senhora beirando os seus 60 anos, gorda, com a roupa cheia de graxa , com seus cabelos loiros, curtos e mal cuidados dava um tom mais pesado àquela gigantesca mulher. Quando chegamos, e vendo que nós nos aproximávamos, foi abrindo logo um sorriso amarelado do cigarro. "Sejam Bem-Vindos, meus jovens, fiquem a vontade! Viu, aqui é um bar de família, todos se amam." Nós sorrimos para ela de forma cordial e entramos. 
O lugar cheirava a mofo e perfume barato e o ar esfumaçado pelo cigarro deixava o ambiente cinzento. Ao fundo um cantor tocava músicas de Reginaldo Rossi, que seguiria por esse caminho com Paulo Sérgio, Altemar Dutra, Odair José, e Waldick Soriano e alguns outros que nem o Jorge, que tanto cultuava esses estilos conhecia. Nessas noites ele deixava Chico Buarque, Zeca Beleiro, Tom Jobim de lado e se esmerava na breguice. Sentamos na mesa logo a esquerda de quem entra. Nos posicionamos estratégicamente de tal forma para que pudéssemos ficar de frente para o público, ao fundo o palco e as nossas costas apenas a parede. A saída ficava bem perto de nós. 
Começamos a beber, havia em torno de umas 30 pessoas no boteco. Os homens seguiam seus padrões de vestimenta, alguns usando camisa polo listrada, outros lisas, camisetas, e alguns tentavam combinar inutilmente camisas polos listradas com calça social, ah e tinha aqueles que usavam uma calça jeans surrada com cinto e fivela gigantesca e camisa florida. As mulheres, em sua maioria usavam roupas com numeração bem abaixo do que seus corpos, não era difícil ver algumas protuberâncias saltando por entre os justos vestidos, outas com costura desfeita em alguma saia curta ou vestido esticado. Uma, em especial, vestia um micro vestido um tomara que caia e um piercing no umbigo inflamado dava um tom do horror. 
Sim, as pessoas não eram bonitas, mas entre tantas uma se sobressaiu, era a mais bonita, seu cabelo castanho claro descia sobre os ombros, seu corpo em forma, e seus peitos saltando quase que para fora do vestido mostravam a beleza exuberante. Ela estava acompanhada de duas amigas e um rapaz com seu bigode ralo (sinceramente não sei porque os homens de hoje usam apenas bigode). Olhamos para ela, ela, por sua vez nos deu atenção. Afonso logo se ouriçou todo. Sim, ele percebera que, naquela situação, ele poderia pegar a mulher mais linda da festa. Ela sorriu para nós, e sua arcada dentária saltou aos nossos olhos, os dois dentes da frente eram cariados, faltava mais uns 4 dentes também da frente, eu e Jorge não tivemos mais coragem para olhar, Afonso por sua vez foi em direção a ela, ele queria ficar com a mais linda da festa. Tinha seu direito. Atravessou o saguão e se aproximou, conversavam e sorriam, os demais amigos conversavam e interagiam com ele. Fazia parte da turma. Eu e Jorge só olhávamos. Encantos para lá, sorrisos para cá e os dois se beijaram, de repente as línguas de cruzaram freneticamente.  Ele entrando naquela boca e tocando sua gengiva sem dentes e ela quase o engolindo, não era uma cena muito linda de se ver, se bem que beleza não era o que estávamos procurando. Ela dava mordidinhas em seu pescoço com seus poucos dentes, na verdade não sabíamos se poderíamos chamar aquilo de mordidinha, estava mais para "gengivinha" (mordidinhas com gengivas). 
Jorge bebia efusivamente e acompanhava cada música que tocava, era incrível o conhecimento dele, principalmente de Odair José, até o tom ele sabia. Eu ficava mais impressionado com ele do que com o cantor que frequentemente errava a nota e desafinava, Jorge não, ele era impecável. Quando uma música começou a tocar "Você me pede na carta que eu desapareça, Que eu nunca mais te procure, pra sempre te esqueça...", quase levantei da mesa e pedi para substituir o cantor por Jorge, quase chorei ao ouvir ele acompanhando a música, algumas pessoas a nossa volta nos olhavam sorrindo, outras rindo de nós. Chamamos a atenção naquele pouco espaço de tempo, nós não, Jorge. Eu prostrado ali só observando tudo aquilo, e rindo, mas rindo muito, era minha melhor situação da noite. Nada sairia dali de melhor. Afonso enamorado e Jorge cantando efusivamente. 
Passava já umas duas horas que estávamos ali quando lá na frente houve um reboliço, ouvimos garrafas se quebrando e de repente uma briga generalizada, nos encostamos mais na parede, Jorge parou de cantar junto com o cantor que levara uma garrafada na cabeça e estava estira do chão. Uma cadeira voou perto de nós e quase me acertou,  Jorge que me puxou a tempo, procuramos Afonso naquele reboliço todo, ele nos procurava com os olhos, pois estava mais perto da briga, veio até nós na primeira estiada do temporal, a turma do deixa disso chegou, mas foi questão de segundos e pau começou novamente, não tinha solução, tínhamos que sair dali o quanto antes. Sorrateiramente saímos e nem olhamos para trás.
Afonso nem procurou sua musa, a integridade física vence sempre quando o caso é de amor. Na saída já quase fora do bar que estava todo em uma quebradeira geral, a gentil senhora que nos recebera naquela noite, bêbada olhou para nós, como se pedindo desculpas saiu dizendo: "família também briga". 
Saímos e naquela noite foi só.  

domingo, 1 de junho de 2014

Vizinho Fofoqueiro

Todos tem, ou já ouviram falar em uma vizinha fofoqueira. É uma classe que até então era exclusiva das mulheres. Eram aquelas desocupadas, devido a condição de "do lar" que ficavam na janela de casa observando os vizinhos indo e vindo. Se apegaram tanto a essa rotina, que seus ouvidos, mesmo a noite, ouviam carros e conversas dos próximos de sua casa, e tiravam suas conclusões pra lá de criativas. Sim, porque não bastava apenas conhecer o fato, mas a forma de contar era imprescindível para a veracidade. 
Mas a modernidade, e a independência feminina criaram outros elementos: O vizinho fofoqueiro. E descobriu-se que se você achava que uma mulher fofoqueira era terrível, é porque você nunca conheceu um homem fofoqueiro. Porque além de ser fofoqueiro ele, homem, quer ser o macho dominante. 
Seu Alfredo era casado com dona Judite, tinha um filho, não que seja isso preponderante, mas todos da vizinhança tinham mais filhos, e por isso, talvez apenas por isso, não tinham muito tempo para cuidar da vida dos outros, tinham seus próprios filhos para se preocupar. Mas o seu Alfredo, ao contrário, adorava a vida da vizinhança e no seu desejo de saber todos os detalhes inventava histórias para fechar as lacunas soltas. Portanto, se ele visse você um dia entrando em casa com uma menina e no outro dia outra menina diferente, pode ter certeza que ele diria que eu era promíscuo, mesmo não sabendo que essa primeira menina era minha amiga que chegava de outra cidade e que fui buscar na rodoviária, e a outra era a namorada dela que chegara no outro dia. E quando ele via a terceira, já achava que era bacanal na minha casa, mesmo essa sendo, de fato, minha namorada e prima da primeira menina que chegara em casa. Se eu me reunia com a turma, e era frequente, com meninos e meninas e tocava o som lá nas alturas, ele jogava objetos para nos assustar e no outro dia estava falando que até meninas nuas circulavam no pátio, mesmo tendo um muro impossível de se ver. Mas ele não via que nas festas do seu filhinho querido com o som alto, somente homens entravam por lá. Eu era o promíscuo e o filho dele era o rapaz da turma de amigos. Não percebera que, no seu filho, existia um gosto claro por meninos. Que óbvio foi calado, por um casamento mais tarde. E hoje vive uma vida infeliz. 
Seu filho até tentou ser o macho dominante, mas quando chegamos na rua, isso foi resolvido em definitivo com uns tapas e umas boas surras para o colocar no lugar. Sim, era assim que as coisas aconteciam no meu tempo de guri. Mas o que definiu isso foi o futebol, como bom brasileiro, resolvemos isso na bola. O Dudu, filho do seu Alfredo era o dono da bola, logo o dono do jogo, quando estava perdendo ou estávamos sendo muito duros com ele, logo recolhia a bola e terminava com tudo, queria mostrar que quem mandava no campinho, assim como o seu Alfredo mandava na rua, era ele. Até que nós, nada bobos que somos, no outro dia aparecíamos com uma nova bola. Fim do domínio do Dudu. Novo governo na área, mais democrático, todos podiam participar, inclusive meninas.
Seu Alfredo logo percebera a situação e como viu seu governo desmoronar quis contra-atacar. E foi pelo nosso campinho que ele tentou. Na primeira chance ele atacou. E foi, também, em um jogo de futebol. Na primeira oportunidade, o pataço do João fez a bola dar uma volta no céu e cair exatamente no pátio do seu Alfredo. Era tudo o que ele queria. Fomos até o portão educadamente pedir a bola de volta e ele se negou. Acabou o jogo naquele dia. Até hoje acho que ele deu a bola para o seu filho como um troféu que o guarda como uma relíquia de conquista. Naquele dia, naquele sábado,  fizemos uma grande festa, com som alto e muita gente, mas muita mesmo. Não deixamos nem ele, e por consequência nem a vizinhança dormir.
Erramos, enfraquecemos nossa base de governo, e o nosso querido vizinho usou aquilo contra nós. Aquela festa ficou conhecida como a maior festa de bacanal que aquela vizinhança teve conhecimento. A sua arte criativa foi fundamental para estabelecer isso. De um reinado estável, democrático e feliz, nos tornamos os irresponsáveis e como tal não poderíamos mais ter o governo em nossas mãos. Viramos rebeldes, coisa boa, na verdade, porque não existe melhor posição para adolescentes. 
Então, cada ação dele, no sentido de nos denegrir ou inventar histórias, nós criávamos as nossas próprias. Se jogássemos a bola e ela caia no pátio dele, podia ter certeza que ia junto algum objeto. Teve uma vez que o Matheus jogou o seu próprio tênis, óbvio que depois ele se arrependeu, era de estimação, tinha marcas da batalha, era surrado, e sua mãe demorou mais de semana para comprar um novo. Nesse tempo ele jogava ou de chinelo de dedo ou de pés descalços. Nunca gostamos tanto de pisar nos pés dele, só de sacanagem. 
Quando o seu Alfredo dizia que tinha meninas com pouca roupa nas nossas festas, nós dizíamos que ele estava enganado, pois elas muitas vezes passeavam nuas pela casa. Tudo invenção, mas tínhamos que ser mais criativos que ele. Conseguimos, e também conseguimos inimizades de alguns vizinhos que levavam isso muito a sério. Algumas meninas da rua foram proibidas de andar conosco. Foi uma época de difícil rebeldia. Nosso veneno estava virando contra nós mesmos. Seu Alfredo era sagaz...
Ele organizava a festa da vizinhança e como bom político nos convidava a fim de estabelecer relações de estado. Lógico que nós íamos, até porque era nossa rua. E foi nesses espaços que começamos a reconquistar nosso território. Pois aos olhos dos outros, nós nos comportávamos como bons meninos, alegres, felizes, mas não eramos desrespeitosos. Enquanto o seu Alfredo dava ordens para uns vizinhos fazer isso ou aquilo, nós chegávamos e ajudávamos os vizinhos nas suas tarefas. Não deu outra, percebendo nossa nova acensão, ele terminou com a festa da vizinhança que acontecia todos os domingos. Mas não tinha mais importância, tínhamos reconquistado nosso espaço e era questão de tempo dominarmos novamente o território.
Mas daí vieram as namoradas, a faculdade e por fim fomos indo embora da rua. Tomamos nossos rumos, fomos viver nossas vidas em outros lugares. E até hoje o Seu Alfredo vive por lá, o síndico da rua, o fofoqueiro, mas todas festividades de fim de ano voltamos, e sei que lá no fundo, quando isso acontece ele treme na base, acredito que ele reza para que não fiquemos muito tempo. Lá no fundo ele sabe quem é que manda.   

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Posso Perguntar?


Um homem e uma mulher, estranhos um ao outro, estão presos no elevador. Ele, então se dirige para ela:
- Posso perguntar?
- O quê?
- Não sei. Tenho dúvidas. Posso perguntar?
- Mas se você não me disser o que, eu não saberei se vou poder responder.
- Isso importa? Quer dizer... Tenho que obrigatoriamente ter uma pergunta formulada para receber uma resposta pronta?
- É o mínimo. – Responde ela ironicamente.
- Mas eu quero perguntar.
- Sobre o que?
- Quero indagar, ter respostas, enfim, quero perguntar.
Ela ameaça por a mão no rosto como forma de indignação, mas se contém.
- Seja mais claro.
- Se eu tivesse clareza sobre o que eu quero perguntar eu não indagaria. Não acha?
- Ai, ai.
- Quando pergunto quero respostas
- O que você quer saber?
- Você já me perguntou isso. E quem tem dúvidas sou eu.
- Por que só você tem dúvidas? Eu não posso ter?
- Pare de perguntar. Esse é meu papel.
- Agora você está afirmando?
- Mas que coisa! Para de perguntar. Lembra? Alôo! Eu pergunto.
- Está certo. Então, vá lá. O que quer saber?
- ...
- Tudo bem, pergunte.
- Sei lá, quero perguntar. Faz uma hora que estamos presos no elevador e até agora não sei nem seu nome.
- Lúcia.
- Mas eu não perguntei nada!
- Então pergunte o meu nome.
- Não me diga o que tenho que perguntar... Mas é uma boa idéia para uma pergunta...
Qual é o seu nome?
... (silêncio)
- Lúcia.... – Responde com uma cara típica de quem está prestes a cometer um assassinato.
- Prazer, o meu é Marcelo.
E passaram mais 40 minutos até que alguém da manutenção cosertou o elevador e os dois saíram. Ela soltando “fogo pelas ventas” e ele com um sorriso de satisfação, tinha, finalmente começado uma conversa uma mulher.
E o guardinha da portaria só olhando.
- Capaz? Jura?

- Juro.

- Que loucura!!

- Verdade, que loucura.

- Não acredito.

- Nem eu acreditva.

- Mas quando?

- Semana passada.

- Onde?

- No estacionamento.

- Capaz? Jura?

- Juro.

- No estacionamento, poxa.

- Pois é. No estacionamento.

- Que horas?

- Altas da madrugada.

- Beiiii

- Pois é. Beiiii...

- Cara, não acredito.

- Tô te dizendo.

- Não, não. Não pode ser.

- Mas digo e repito, foi no estacionamento, altas horas da madrugada. Uma loucura...

A secretária, que escutava a conversa atrás da porta, sai de trás da porta enfurecida.

- Mas de quem? De quem? Homens, não sabem nem fazer fofoca direito, aff...

terça-feira, 20 de maio de 2014

MOEDA DE TROCA


-Compro!!!
-Mas já o vendi
-Compro de volta
-Mas é bem caro
-Troco o meu pelo teu, que tal?
-Não, pois o meu e maior
-Maior que o meu???
-Sim.
-Tá, preciso de uma prova.
- Que tipo de prova
-Uma prova que o teu sentimento é maior que o meu?
-Não funciona assim
-Veja bem, estou disposto a pagar a diferença...
-Está bem.
-Tá, então vá lá... Tenho que pagar a diferença e tenho que saber quanto é?
-Que moeda usaremos??
-Boa pergunta... podem ser moedas subjetivas... Pensei em pequenos lances de declarações, uns beijos furtivos, um olhar roubado. Ah, sim, nesse caso o roubo é dado como valor monetário positivo, também...
-Isso seria nossa moeda? Você teria que dar muito mais para compensar o meu que é maior?
-Teríamos que estipular quanto. Mensurar valores
-Mas como se toda a nossa moeda está nessa subjetividade.
-Então, subjetivamente quando completado o valor compensado, compensaremos mutuamente
-Podemos compensar agora?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

É apenas Vingança


Em uma de suas passagens o personagem V, de Allan Moore na Graphic Novel V de Vingança, diz o seguinte para o Finch, personagem da trama, que o ameaçava com uma arma: " Você pretendia me matar? Não há carne nem sangue nesse manto para morrerem. Há apenas uma ideia. Ideias são a prova de balas". Essa Graphic Novel nunca foi tão atual quanto nos dias de hoje. Em um ambiente inglês totalitário, surge uma pessoa que representa a liberdade, mas pela vingança. A proposta é a destruição das instituições assim constituídas e a liberdade da população, que começam a ver as ações de V como forma de se libertarem do totalitarismo. Quando finalmente V consegue desestabilizar as estruturas de estado, a população sai às ruas e o caos se estabelece. Saques, vandalismos são registrados. O governo tentando reverter a situação e "recolocar" tudo no seu devido lugar planta informações a respeito da morte do Ati-Herói, e em auto falantes implantados nas ruas de Londres informa: "O terrorista foi baleado, a insurreição acabou, por favor, retornem às suas casas e familiares", ou seja estava morto a liberdade, a esperança da vingança. V realmente fora ferido mortalmente, mas como sua ideia não morre, logo é substituído. Suas últimas palavras são emblemáticas: "Eve, aquele que me aguardava me chamou. Não tenho muito tempo...Esse país não está salvo...não. Não se iluda...Mas todas as velhas crenças tornam-se destroços...E, dos destroços, podemos reconstruir. Essa é a missão deles. Governem-se a si mesmos. Suas vidas, amores e terra. Com isso alcançado, que falem de salvação. Caso contrário, certamente serão carniça". Portanto não morre a ideia, mas apenas o homem que ali representava isso. No filme, toda a população no final usa sua máscara ratificando a proposta.

Esse emblemático texto remete-se hoje ao nosso tempo, resgatando o espírito da Vingança, jovens saem as ruas, com as máscaras do V. Esse símbolo não esconde por trás um rosto anônimo, ele é conhecido por todos nós. É o povo brasileiro, sofrido há décadas de descaso de suas reivindicações e seus anseios. Alguém ousará dizer, "mas não sabem votar, então". Não, somos jovens demais democraticamente, temos muito o que aprender. Posso colocar alguns pontos que ainda são lembrados pelo imaginário popular. Posso começar pela venda das Estatais no governo FHC, é de conhecimento de todos as formas escusas como foram feitos os leilões, tudo dentro da lei, claro. Temos também o painel de votação do Congresso Nacional. Pulando um pouco vamos ao governo Lula, e o seu mensalão, depois eleitos e reeleitos cidadãos que nem poderiam estar livres, quanto mais sendo presidente do Congresso como Renan Calheiros, associado a isso, Collor torna-se um dos principais aliados do governo federal. Ah, não se esqueçamos de Marcos Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos, tão criticado pela população. Depois veio a Copa, nosso sonho, nosso sentimento de pátria de chuteiras finalmente seria realizado. Mas mais uma vez, fizeram com que nosso sonho se torna-se um pesadelo, gastamos o equivalente a três Copas do Mundo e ainda vem mais por aí, tem as Olimpíadas. Tudo o povo aguentou, até que de repente descobriram as redes sociais como forma de se organizar e anonimamente começaram a convocar as população para reivindicar seus direitos, primeiro por passagem pública de qualidade, depois, bom, depois essa mesma população começaram a querer mais. Querem mudança. Por isso os políticos não compreendem o que está acontecendo, não adianta baixar as passagens de transporte coletivo, e a qualidade? Será muito mais que isso, como é mesmo o slogan "não é apenas por R$0,20". Realmente não é. O povo quer apenas Vingança. Vingança por tudo aquilo que citei acima e muito mais. Querem Vingar, apensa Vinga a Pátria Livre.

domingo, 10 de julho de 2011

Uns caras que se chamavam Charles Dickens, Topffer e Wilhelm Busch - Parte I

Parte I - Dickens e o Pickwick

Era uma vez, há muito tempo atrás, uns caras resolveram inovar em ilustração. Resolveram trabalhar melhor a interação entre linguagem verbal e não verbal. Esses caras eram Charles Dickens, Topffer e Wilhelm Busch. Três homens de diferentes países viram um potencial imenso nessa união entre palavras e imagens. Surgiram as mais belas ilustrações do final do século 19.


Um dos maiores escritores da Era Vitoriana, Charles Dickens nasceu em 7 de Fevereiro de 1812 em Moure, condado Hampshire, Inglaterra. Escritor de livros universais como Copperfield e Oliver Twist. Os primeiros trabalhos retratavam peças jornalísticas de retratos de costume. Dickens trabalhou no jornalismo por muito tempo, mas fora um projeto em especial que estabeleceu seu nome como escritor: The Pickwick Papers.  Tornou-se um sucesso. The Pickwick Papers era uma sequências de aventuras desenhadas por Robert Seymour, ilustrador britânico. Ação datada em1827-8, tem como personagem principal o Sr. Samuel Pickwick, Esquire , um tipo velho e rico, e presidente fundador e perpétuo da Pickwick Club. A fim de ampliar as pesquisas sobre os fenômenos curiosos da vida, ele sugere que ele e outros três "Pickwickians" (Sr. Winkle Nathaniel, o Sr. Augusto Snodgrass, eo Sr. Tracy Tupman) deve fazer viagens a lugares remotos de Londres e um relatório sobre suas descobertas aos outros membros do clube.

Seu principal valor literário e de recurso é formada por suas numerosas personagens memoráveis. Cada personagem em The Pickwick Papers, como em muitos outros romances de Dickens, é desenhada comicamente, muitas vezes com personalidades exageradas. Alfred jingle , que se junta ao elenco no capítulo dois, dá uma aura de vilania quadrinhos, seus truques desonestos repetidamente deixam Pickwickians em apuros. Tamanho foi o sucesso de The Pickwick Papers, que fora adaptado para teatro, rádio e musical. Talves, seja o primeiro trabalho de equipe em produzir histórias em quadros. Começava aí uma relação muito próxima entre roterista e desenhista, entre  linguagem verbal e não verbal na produção de um texto único.


domingo, 19 de junho de 2011

E a arte sequencial

Esse nome diminutivo, e até infantilizado, revela-se para nós como uma das artes mais importantes do mundo contemporâneo, em conjunto com o cinema é a mídia mais importante do século 20. No Brasil, ainda está ligado ao desenho que nela se expressa, mesmo sabendo da carga dramática, narrativa, que um roteiro proporciona para que tais desenhos se sobressaem.
Como arte sequencial sua origem extravasa o tempo, e começa na idade da pedra, onde o homem pintou as paredes das cavernas em que vivia e nos legou a imagem simples e direta das figuras de homens em caças, em danças, imagens que narravam sequencialmente o cotidiano da humanidade pré-histórica. A linguagem, a comunicação era icônica. Os hierógriflos misturavam-se já, imagem e letras formando histórias, são por esses hieróglifos que conhecemos a história dos egípcios, por exemplo. A bíblia de Gutemberg é uma verdadeira revolução unindo linguagem verbal e não verbal, mas nada se compara a um conjunto de cenas do Trinity College Library, em Cambrige, extraído do manuscrito do Apocalipse é tão revelador. Nele cenas de anjos no céu falam em balões de texto aos homens da terra. Em quadros sequenciais vemos, pela primeira vez os quadrinhos tal como conhecemos hoje sendo produzido em 1230.
 Demos um salto, avançamos no tempo. A humanidade vive seu período mais brilhante, depois do iluminismo, as revoluções francesas e americana, a última revolução industrial nos mostra uma face imprecionante: A descoberta da impressão. Os folhetins ilustrados, romances seriados, eram vendidos de porta em porta, regularmente, como novelas de hoje na tv. Os crimes da época eram vendidos em posters nas feiras populares, como a literatura de cordel no nordeste brasileiro. As imagens de bandidos procurados são destacados em postes às centenas, Charles Dickens edita o Pickwick Paper, Topffer, pintor suíço, produz a Les Amours de Monsieur Viex-bois, hoffmann Publica Struwwelpeter, um menino distraído e desobediente e surge na alemenha pelas mãos de Wilhem Busch o primeiro personagem em ilustração em continuação: Max und Moritz.

Continua em: Charles Dickens, Topffer e Wilhelm Busch.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Inovação na Educação


Se a hélice tríplice toma formas mais concretas em determinados ambiente, em alguns lugares ainda está longe do entendimento que a integração estado, universidade e industria é mais que necessária, é urgente para que cada vez mais a profissionalização faça alavancagem de negócios, regulamentar leis a fim de dar maior segurança e equilíbrio na propriedade intelectual e sempre aproximando o mundo público do privado. As pesquisas e estudos nas universidades devem estar mais próxima do mercado, fazendo sempre aperfeiçoamento científico aliado a necessidade de mercado, a economia como um todo.
Junto a isso, precisamos preparar para formamos melhor as pessoas. São pessoas que geram inovação, ideias, conhecimentos que criam ambientes inovadores, situações inovadoras. Por meio disso é fundamental repensar, e sério, o papel da educação nesse processo, propondo reformulações nos currículos escolares, na verdade muito mais que meramente mudança de currículos é mudança de método, de postura, de visão de ensino, para que venham ao encontro da formação de empreendedores sociais, inovadores da nova sociedade, verdadeiros antropólogos e arquitetos da experiência, observadores que vêem no cotidiano forma novas de ver o mundo que o cerca, olhares treinados a sempre ver inovação no seu caminho.
Para tanto, é preciso preparar nossos jovens para a incerteza, sim, se antes a escola preparava para as certezas do mundo que nos cerca, hoje, com o mundo globalizado e com informações cada vez mais rápidas, e muitas vezes incertas, as certezas caíram por terra. Necessário há de qualificar a jornada desses jovens, qualificar o processo de educação, educar para a descoberta, abrir novas portas e estar sempre disposto a novas oportunidades.
Educar, educação voltada para a nova economia onde requer reestruturação da escola, mudar de forma efetivo seu modo de operação. Investir mais no ensino básico. Existe muito desenvolvimento científico na ponta de cima (universidade)com pouquíssimos resultados na base.

Enquanto as universidades ganham uma enxurrada de recursos financeiros, a escola fundamental sofre e pena a beira da morte. Não há investimentos suficientes para recuperá-la, os professores seguem nas condições mais inadequadas de ensino, associadas a falta de formação paralela que acompanhe constantemente o avanço do mundo globalizado. Somado a isso, como inovar em um ambiente tão estático, propício ao acomodamento como são as escolas públicas? Se inovação parte de renovar, de alterar padrões, comportamentos, construção de novos processos, como fazer mudanças quando os que devem fazer a mudança permanecem em zona de conforto? Talvez, eu disse, talvez passe por aí seu "status quo", forçando-o a mudança, se não mudar cai, é substituído pelo processo.

Outro importante valor a ser somado nesse processo é a distribuição tributaria. Não é mais possível grande parte da arrecadação do município ir para a União. Essa relação altera profundamente os investimentos, entre outros, na educação, por exemplo. A alteração do pacto federativo é fundamental para dar maior poder para as cidades. A repartição das receitas tributárias é um problema sério no contexto da nossa federação, a cada dia se nota uma hegemonia cada vez maior da União em detrimento aos municípios. Essa hipertrofia torna o desenvolvimento desassociado da vida do município, desconectado com a realidade da vida cotidiana do bairro , da cidade.

Sim, cidade, pois são nelas que as pessoas moram, estudam, trabalham, pois antes de sermos brasileiros, somos santamarienses, portoalegrenses, pernambucanos,etc. Com o fortalecimento do município, fortalece as relações básicas sociais na nossa cidade tendo mais recursos para a educação real, aquela que convivemos diariamente, no nosso cotidiano e não o que se passa no nordeste, não que isso não seja interessante para o conhecimento geral, mas é do nossa casa, bairro e cidade que primeiro devemos conhecer.

Divagamos sobre isso, se de alguma forma algo nos incomoda significa que há mudança para acontecer, do contrário na acomodação, tornamo-nos apenas meros passivos da onda de inovação que está acontecendo em todo o mundo

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Carta do 3º Congresso Internacional de Inovação 2011- O Rio Grande do Sul Inovador



A Inovação é fundamental para a competitividade do Rio Grande do Sul e para sua prosperidade. Ela se estabelece a partir da presença de condições necessárias no ambiente de negócios do nosso Estado, propiciando a geração de mais riqueza.
Consolidar o papel dos gaúchos na Nova Economia como protagonistas de um ambiente inovador é responsabilidade dos principais atores envolvidos no processo como Hélice Tripla: as Empresas, as Universidades e o Estado.
Num momento de transição democrática, cabe ressaltar o papel da Agenda2020 como ferramenta reconhecida por todos na coligação dos esforços estratégicos da comunidade do Rio Grande do Sul, incluindo a competitividade, via inovação, como um dos grandes eixos de desenvolvimento.
Em 2011, o Sistema FIERGS (SESI, SENAI e IEL) se propõe a cooperar plenamente com os esforços do novo Governo na agenda de desenvolvimento do Estado. As empresas têm um papel central na criação de riquezas e na promoção de um processo permanente de empreendedorismo, mas dependem de boa infraestrutura, centros de pesquisas e universidades, além de um processo aprimorado de educação primado pela qualidade e pela excelência.
Nesse cenário, os requisitos e as linhas de ação imprescindíveis são:
1.Trabalhar de forma intensa na continuidade da regulamentação, da divulgação e nos processos operacionais de Governo para obter os máximos efeitos da Lei de Inovação Estadual, promovendo um ambiente cada vez mais propício para manter, atrair empresas inovadoras ao Rio Grande do Sul e as e fazer crescer;
2.Educar para inovar, promovendo uma profunda mudança nos alicerces da educação fundamental no RS e salientando a sua importância para a Nova Economia. Enfatizar a melhoria do ensino de Ciências Exatas, Língua Inglesa e Informática e estimular a excelência na prática dos educadores;
3.Fomentar a cultura empreendedora e o empreendedorismo;
4.Promover a sustentabilidade como elemento de qualificação e diferenciação da indústria gaúcha na Nova Economia;
5.Fortalecer o Núcleo de Inovação RS no âmbito do MEI − Mobilização Empresarial pela Inovação da CNI, participando de suas atividades;
6.Tratar de forma diferenciada as empresas nascentes com alto potencial de inovação;
7.Estimular o capital de risco no Estado do RS a investir em empresas inovadoras;
8.Estimular os Parques Tecnológicos e intensificar os esforços para aproximar as empresas das Universidades e dos Centros de Pesquisas;
9.Utilizar o poder de compras do Estado através da Lei de Inovação ou do seu aperfeiçoamento como indutor do desenvolvimento das empresas locais;
10.Promover ações de "marca" do produto rio-grandense no Brasil e no exterior, visando ao crescimento das vendas através da participação constante nos principais eventos associados aos mercados de interesse;
11.Criar uma sistemática para difusão dos incentivos governamentais para a inovação (Lei de Inovação, Lei do Bem, Lei do MEC, Editais FINEP, CNPQ) e capacitar empresas no desenvolvimento de projetos de inovação;
12.Fomentar as parcerias de modo inequívoco entre empresas locais e empresas internacionais, visando à transferência de tecnologia ou ao desenvolvimento cooperativo;
13.Estimular boas práticas de gestão em todas as organizações do Estado, particularmente em empresas de pequeno e médio porte, visando a facilitar a absorção da inovação e a capacitação em gestão das organizações via Programa Gaucho da Qualidade e Produtividade (PGQP);
14.Articular com empresas e agentes de pesquisa e desenvolvimento (Universidades e Centros de Pesquisa) a construção de diretrizes estratégicas que lhes permitam realizar grandes projetos tecnológicos de interesse do Rio Grande do Sul, dando-lhes possibilidade de otimizar o uso de recursos disponíveis para tal finalidade nos órgãos de financiamento estaduais (Fapergs, BRDE, Caixa-RS), federais (Finep, Carta BRDE,caixa-RS), federais (Finep, BNDES, CNPq, Fundos Setoriais ,Verde-Amarelo, do Petróleo) e internacionais.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nossa Eleição

Por que nossa? Sim, é nossa. Nossa responsabilidade, de cada eleitor, de cada cidadão pelos nossos representantes. Portanto, NÃO CULPEM OS POLÍTICOS, sim, não culpem os políticos. Nós, somente nós somos responsáveis por eleger pessoas como Tiririca, pelos santinhos sujando nossas ruas, pela inundação de placas nos canteiros, pelos jingles, enfim pelos nossa democracia ser tão insípida.
Quando criticamos nossos políticos, acusamos de corrupção, porém temos que primeiro avaliar quem nós elegemos, qual o histórico político do nosso candidato. Elegemos porque o cara foi campeão da América pelo grêmio, caso Darlei, foi campeão do Tetra pelo Brasil, caso Romário e Bebeto, ou é um palhaço, como o caso do Tiriica, porém isso não é razão suficiente para confiarmos nosso voto. Nada contra essas pessoas citadas, mas quem são? Qual sua conduta política, tem capacidade para exercer uma função política? Nunca pensamos isso, elegemos simplesmente porque ele foi ou é nosso ídolo, e cá entre nós, uma representação muito pouca para o que queremos. Ainda reclamamos, reclamamos, mas reelegemos Renan Calheiros, quase elegemos Fernando Collor de Mello, e tantos outros que se eu for enumerar, seria um texto somente com o nome dessas figuras que deveríamos extirpar do cenário político.
Outro ponto, sobre sujeira nas ruas, placas nos canteiros das avenidas e jingle. Não podemos culpar os políticos sobre isso. é NOSSA CULPA, somente nossa, ter pouca memória, não estudar em quem vamos votar, e não conhecer sequer o número de nosso candidato. Porque, vamos lá, você lembra de todos os números que digitou na urna?? Sinceridade, não. Então por isso, que ao entrar em alguma sessão eleitoral existe uma enxurrada de papéis de candidatos, eles colocam ali para que nós não nos esqueçamos de seu número, ah! E se não tiver ninguém para votar pegar o que está no chão, é mais prático (não é a toa que os santinhos são de uma pompa só e no verso só tem instruções de como votar, história do candidato? Para que?).
E as musiquinhas? Os jingles! Quanta alegria, quanta informação! Saiba, eles servem somente para você gravar o nome ao número do candidato, pois nós não temos capacidade de fazer isso sem uma ajudinha de um som do candidato passando pela nossa casa.
Portanto, não culpem os políticos, é responsabilidade nossa, somente nossa, toda atitude que um político toma, seja ele em campanha política ou nos representando no Congresso, Senado ou Assembleia.
Pensem a respeito

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Posso Perguntar?

Um continho antigo que achei perdido por aí.

Um homem e uma mulher, estranhos um ao outro, estão presos no elevador. Ele, então se dirige para ela:
- Posso perguntar?
- O quê?
- Não sei. Tenho dúvidas. Posso perguntar?
- Mas se você não me disser o que, eu não saberei se vou poder responder.
- Isso importa? Quer dizer... Tenho que obrigatoriamente ter uma pergunta formulada para receber uma resposta pronta?
- É o mínimo. – Responde ela ironicamente.
- Mas eu quero perguntar.
- Sobre o que?
- Quero indagar, ter respostas, enfim, quero perguntar.
Ela ameaça por a mão no rosto como forma de indignação, mas se contém.
- Seja mais claro.
- Se eu tivesse clareza sobre o que eu quero perguntar eu não indagaria. Não acha?
- Ai, ai.
- Quando pergunto quero respostas
- O que você quer saber?
- Você já me perguntou isso. E quem tem dúvidas sou eu.
- Por que só você tem dúvidas? Eu não posso ter?
- Pare de perguntar. Esse é meu papel.
- Agora você está afirmando?
- Mas que coisa! Para de perguntar. Lembra? Alôo! Eu pergunto.
- Está certo. Então, vá lá. O que quer saber?
- ...
- Tudo bem, pergunte.
- Sei lá, quero perguntar. Faz uma hora que estamos presos no elevador e até agora não sei nem seu nome.
- Lúcia.
- Mas eu não perguntei nada!
- Então pergunte o meu nome.
- Não me diga o que tenho que perguntar... Mas é uma boa idéia para uma pergunta...
Qual é o seu nome?
- ... (silêncio) Lúcia. – Responde com uma cara típica de quem está prestes a cometer um assassinato.
- Prazer, o meu é Marcelo.
E passaram mais 40 minutos até que alguém da manutenção concertou o elevador e os dois saíram. Ela soltando “fogo pelas ventas” e ele com um sorriso de satisfação, tinha, finalmente começado uma conversa uma mulher.
E o guardinha da portaria só olhando.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Grato, Saramago


" Acho que na sociedade actual falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer os objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem idéias, não vamos a parte nenhuma."
Saramago.
Hoje morreu uma figura incomum: José Saramago. Está alí nas minhas imagens, a esquerda, entre tantos que já se tornaram imortais, como Descartes, Maquiavel, Machado de Assis, e tantos outros que representam ou marcam uma história, uma vida.

Seu último texto nos é revelador: é necessário refletir, pensar, porque em um mundo sem idéias, vivemos na mecanicidade que tanto condenamos.

Grato senhor, estás para sempre entre os imortais.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Divagações


Em que mundo vivemos? Qual o valor das relações? Quanto vale as relações compartilhadas entre as pessoas? Tem peso? Há muito, perguntas como essas tem circulado em minha cabeça. Vivemos em um mundo onde o desgaste das relações chegaram a uma complexidade tal que viver tornou-se um amargo pesar. Pena, penso que isso tenha ocorrido. Ao invés de vivermos, ficamos pensando no que vai dar errado, sem saber se vai dar ou não.
Fizemos projeções malucas e baseada em suposição, variável (sim, no singular, uma suposição e uma variável). Não entendem que a vida não pode ser levada tão a sério, devemos tê-la em nossas mãos, mas nunca sufocá-la. Deixe acontecer. Sinta a brisa do ar e perceba que a vida é simples, tudo é simples. Tudo, absolutamente tudo está nas pequenas coisas, no convívio, no relacionar-se, no estar com alguém ou não querer estar.
Os milagres não são coisas magnânimas onde grandiosas ações acontecem. O nascimento de uma criança, o fazer sorrir de um velho solitário, o amar uma pessoa, são os exemplos mais claros de milagres que acontecem todos os dias.
Mas nós não percebemos mais isso. O que importa é a não vida, a não relação, a complexidade, a morte do ser de fato humano. Ao nosso redor o mundo se transforma, e nós vamos morrendo em vida a cada dia, a cada instante.

Quando vejo a humanidade, vejo com olhos de pena

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sobre o II Congresso Intenacional de Inovação


O II Congresso Internacional de Inovação criou no seu espaço uma ampla discussão sobre os processos inovadores no mercado econômico, pouco foi discutido sobre inovação social e o papel da sociedade civil organizada no processo de inovação. Percebe-se que ainda há uma tendência clara de pensar inovação somente como mercado econômico, sem pensar nas relações interpessoais que estão surgindo cada vez mais e potencializando o capital humano.
Parece ser consenso que investir na educação como processo para alavancar a inovação nos seus mais diferentes espaços é de fundamental importância, porém segue a questão de como investir e planejar essa área tão estratégica para a inovação. Prossegue as discussões que os incrementos nas pesquisas, principalmente em universidades, passam a ser um viés importante, porém é nesse quesito que existe uma proposta em aberta.
As universidades e instituições de ensino defendem que seus estudos e pesquisas, independente do indivíduo pesquisador, pertencem à universidade, principalmente no que diz respeito às públicas. Da mesma forma, a indústria, advoga que as pesquisas de relevância inovadora devem servir aos interesses do mercado, visto a importância estratégica para o crescimento econômico. O estado, por sua vez tenta regular e mediar essa discussão, e o que tem acontecido é que boa parte das patentes sobre inovação estão ficando cada vez mais para às universidades e instituições de pesquisa, dando-as um poder importante dentro da relação estado, indústria e universidade. Ao que parece a hélice tríplice ainda não alçou vôo devido ao clareamento do papel que tem cada um dos três elementos.
No que diz respeito às pesquisas e patentes por parte do setor público, um exemplo a ser citado é o de biotecnologia. Nessa área, as instituições de pesquisa pública correspondem a 10 vezes mais que a privada e na Europa 23,8% das patentes sobre essas pesquisas são públicas, o que deixa, segundo a observação de alguns industriais, o setor privado refém do estado. Eles entendem que o estado, as universidade e instituições de pesquisa pública devem servir ao interesse privado, sem ônus.
A biotecnologia vem crescendo no vácuo cada vez maior da produção de petróleo que chegou a uma estabilidade de produção e está dando sinais claros de queda. Além do mais, os países ricos e ditos emergentes não se permitem mais ficarem reféns de Estados que concentram maior parte de energia fóssil. Países esses que cotidianamente encontram-se em conflito aumentando a tensão internacional, exemplos disso não faltam, Venezuela, Arábia Saudita, Iraque, etc.
Portanto, a volatilidade do petróleo e falta de capacidade de produção uniforme tornaram-se importantes fatores para a produção de outras alternativas de energia. O Brasil, no investimento em pesquisa com o biodiesel, tem dado mostras importantes nessa direção, porém, a comunidade internacional, apesar de aplaudir os estudos de pesquisa brasileira, afirmam que o biodiesel tem baixo valor energético, e que é necessário desenvolver outros meios de produção com maior valor.
Exemplos como energia eólica e solar ainda são alternativas, mas permanecem sendo de alto custo, sendo que precisam de uma grande área territorial, o que tem tornado, ainda, muito problemático a sua implantação em larga escala.
Ainda, o investimento em mão de obra para pesquisas de energias sustentáveis devem ser o foco dos próximos anos. Mesmo como a queda dos transgênicos na crise da moratória em 1999, o crescimento nas pesquisas sobre biotecnologia tem crescido muito. Porém o investimento ainda é alto e as indústrias, ditas grandes, não tem dado suporte suficiente para investimentos nesse campo, ocasionando uma abertura significativa para empresas de pequeno e médio porte se inserirem fortemente no mercado. Esse alto preço de investimento tem forçado o estado a propor políticas públicas conduzindo para a pesquisa.
Logo, para se ter um desenvolvimento sustentável precisa-se de lastro para ter maior investimento em educação dando prioridade para ciência, tecnologia e inovação, induzindo e fomentando a pesquisa científica e tecnológica. Para tal desenvolvimento é preciso ter recursos financeiros, estrutura compatível, ter trabalhos, centros de pesquisa, empresários e governo trabalhando como hélice tríplice, políticas coerentes com condições de investimentos, legislação moderna e fiscalização por meio de um arcabouço legal ágil e dinâmico. Um exemplo disso são as novas leis e programas estaduais sobre inovação como o Pró – Inovação RS, a lei de Inovação do estado, onde empresas inovadoras terão aproveitamento de desconto no ICMS e por parte do Ministério de Ciência e Tecnologia, a criação da Secretaria Nacional de Inovação e seus desdobramentos.
Para se ter uma sociedade inovadora é preciso a construção do conhecimento tácito para o explícito por meio de cooperação entre sociedade, universidade, empresas, entidades e governo. Dando a todos apoio e observância sobre a educação e a ciência. Como inovar nesse processo? Há um entendimento que é preciso inovar em conhecimento.
Para se ter uma ambiente favorável à inovação é preciso pensar inovação de processos, se incorporar às evoluções que o mercado exige. Para isso é preciso ajustar o comportamento gerencial e estimular atitudes inovadoras. A indústria deve se organizar por meio de inovação e melhorias para se manter no mercado. Acrescenta-se também a uma forma para medir o índice de inovação, incluindo métodos que meçam competência e capacidade para se ajustar. Nesse caminho não é mais possível conciliar juros altos com incentivos a inovação, logo, os desafios da gestão pública estão em resolver tais problemas no entrave para inovação.
O Brasil, apesar de alguns avanços, ainda está aquém do que é posto. No ranking mundial o país encontrar-se em 70ª lugar em IDH e é posição 56ª em competitividade. A taxa de escolaridade também não é animadora, apenas 12% de jovens entre 18 e 24 anos estão na universidade, e entre 25 à 34 anos cai para 10%. Na área de engenharia, ou seja, infra-estrutura (pesquisa e estudo) apenas 5% da mão de obra está qualificada para o setor.
Também vale lembrar que em 2007 apenas 200 empresas foram beneficiadas pela Lei do Bem (lei de pró – inovação tecnológica na indústria) e em 2008 apenas 34 operações foram contratadas para busca de recursos junto ao FINEP. Demonstrando que o sistema de inovação do país ainda é elitizado, pois somente quem detém as informações e os caminhos conseguem recursos e facilidades, ou seja, somente quem consegue é quem tem um alto poder aquisitivo para contratar pessoas ou consultorias para isso.
Inovação não é o fim, é o meio, por isso devem ser feitas estratégias para massificar o comportamento empresarial em direção a inovação. O estado deve trabalhar com conceitos de governança, gerenciando os processos como agenda estratégica, e tendo a premissa de inovação comportamental.
Na era do conhecimento é preciso definir, principalmente, o papel da universidade. Existe uma corrente que discute a possibilidade de ter cadeiras de empreendedorismo em todos os cursos de graduação, pois por mais que não se empreenda, todos têm que saber seu papel no processo (exemplo clássico do trabalhador que aperta o parafuso e não conhece ou compreende o todo).
O estado deve propor políticas públicas para o setor de inovação e manter a longo prazo tais políticas. A indústria deve estar pronta a inovar nos seus meios de produção. Para isso é necessário investir em uma infra-estrutura nacional, sem a qual não há inovação. Não basta apenas pequenas e médias empresas inovarem de forma isolada, é preciso uma articulação para definir a participação dos elementos sociais, e nesse ponto, a atuação do estado é fundamental.
Por falta de disciplina 96% dos esforços de inovação fracassam. Para inovar é preciso ter princípios, como prestar atenção em novas vozes fora e dentro do meio, incentivar e estimular novas perspectivas (deixar fluir tempestades de idéias), derrubar as ortodoxias nas instituições, colocar-se dentro da cabeça (ex: como a dona de casa pensa, quais suas necessidades, o que ela faz, etc) e pensar na necessidade dos consumidores dentro da cadeia (ex: hospital, do atendimento, ao exame).
Nesse caminho pensar uma política financeira é preciso. Há um apontamento para fundos de capital de risco híbrido, onde estado e indústria assumem seus papéis na produção de inovação. Algumas observações foram levantadas como a não existência de uma distribuição uniforme de recursos financeiros e que a internacionalização da inovação causa desuniformidade na aplicação de crédito.
Mesmo assim, por mais que existam investimentos diferenciados, devido, as capacidades econômicas, a globalização está otimizando as cadeias de valor a nível mundial, deixando menos espaços para iniciativas regionais locais, portanto pensar inovação como processo mundial é de fundamental importância. Mesmo assim, não se devem descartar as diferenças regionais.
Devem-se incorporar as mais recentes tecnologias, adicionando serviços avançados e também fortalecimento no campo global. Podemos dar um exemplo: Se a China vende câmeras de vigilância, por exemplo, outro país, ou região investe no serviço de instalação e vice e versa. Pensar em prestação de serviço ajuda a agregar valor no que é disponibilizado no mercado (refletir em APL’s, ou Clusters de serviços). Ou simplesmente olhar para todo o processo: fabricação – serviços (processamento, personalização e logística).
Por fim, a inovação deve estar nas novas relações entre estado, governo e indústria, como cada um está no processo, quais são as mudanças importantes para que haja melhor interação entre as organizações postas, e qual o papel da sociedade civil organizada nesse processo? Cada elemento deve potencializar sua participação na relação, e modificar-se, transmutar-se para não ficar a reboque do processo evolutivo da inovação. Portanto, urge as universidades se descompartimentalizar e pensar o conhecimento como um todo; o estado deve desburocratizar a fim de tornar-se um agente ágil e moderno frente ao volume cada vez mais crescente de demanda; e a indústria deve modernizar-se, atualizar, passar do papel de mero empregador para o papel de empreendedor de inovação.